From Um copo de cólera

Written in Portuguese by Raduan Nassar

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A CHEGADA   

E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, fi-cando com nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” e como ela dissesse “mais tarde” eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.

NA CAMA

Por uns momentos lá no quarto nós parecíamos dois estranhos que seriam observados por alguém, e este alguém éramos sempre eu e ela, cabendo aos dois ficar de olho no que eu ia fazendo, e não no que ela ia fazendo, por isso eu me sentei na beira da cama e fui tirando calmamente meus sapatos e minhas meias, to- mando os pés descalços nas mãos e sentindo‑os gostosamente úmidos como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante, e me pus em seguida, com propósito certo, a andar pelo assoalho, simulando motivos pequenos pra minha andança no quarto, deixando que a barra da calça tocasse ligeiramente o chão ao mesmo tempo que cobria parcialmente meus pés com algum mistério, sabendo que eles, descalços e muito brancos, incorporavam poderosamente minha nudez antecipada, e logo eu ouvia suas inspirações fundas ali junto da cadeira, onde ela quem sabe já se abandonava ao desespero, atrapalhando‑se ao tirar a roupa, embaraçando inclusive os dedos na alça que corria pelo braço, e eu, sempre fingindo, sabia que tudo aquilo era verdadeiro, conhecendo, como conhecia, esse seu pesadelo obsessivo por uns pés, e muito especialmente pelos meus, firmes no porte e bem-feitos de escultura, um tanto nodosos nos dedos, além de marcados nervosamente no peito por veias e tendões, sem que perdessem contudo o jeito tímido de raiz tenra, e eu ia e vinha com meus passos calculados, dilatando sempre a espera com mínimos pretextos, mas assim que ela deixou o quarto e foi por instan- tes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria sempre de gritar “é este canalha que eu amo”, e repassei na cabeça esse outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando minha mão na sua, arrumava‑lhe os dedos, imprimindo‑lhes coragem, conduzindo‑os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si sós uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pelos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração, e de olhos fechados, largando a imaginação nas curvas desses rodeios, me vi também às voltas com certas práticas, fosse quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu ventre, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jatos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia à pele do rosto e à pele dos seios, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto se desenvolvendo num crescendo mudo e paciente de rijas contrações, e em que eu dentro dela, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estertores da mais alta exaltação, e pensei ainda no salto perigoso do reverso, quando ela de bruços me oferecia generosamente um outro pasto, e em que meus braços e minhas mãos, simétricos e quase mecânicos, lhe agarravam por baixo os ombros, comprimindo e ajustando, área por área, a massa untada dos nossos corpos, e ia pensando sempre nas minhas mãos de dorso largo, que eram muito usadas em toda essa geometria passional, tão bem elaborada por mim e que a levava invariavelmente a dizer em franca perdição “magnífico, magnífico, você é especial”, e eu daí entrei pensando nos momentos de renovação, nos cigarros que fumávamos seguindo a cada bolha envenenada de silêncio, quando não fosse ao correr das conversas com café da térmica (escapávamos da cama nus e íamos profanar a mesa da cozinha), e em que ela tentava me descrever sua confusa experiência do gozo, falando sempre da minha segurança e ousadia na condução do ritual, mal escondendo o espanto pelo fato de eu arrolar insistentemente o nome de Deus às minhas obscenidades, me falando sobretudo do quanto eu lhe ensinei, especialmente da consciência no ato através dos nossos olhos que muitas vezes seguiam, pedra por pedra, os trechos todos de uma estrada convulsionada, e era então que eu falava da inteligência dela, que sempre exaltei como a sua melhor qualidade na cama, uma inteligência ágil e atuante (ainda que só debaixo dos meus estímulos), excepcionalmente aberta a todas as incursões, e eu de enfiada acabava falando também de mim, fascinando‑a com as contradições intencionais (algumas nem tanto) do meu caráter, ensinando entre outras balelas que eu canalha era puro e casto, e eu ali, de olhos sempre fechados, ainda pensava em muitas outras coisas enquanto ela não vinha, já que a imaginação é muito rápida ou o tempo dela diferente, pois trabalha e embaralha simultaneamente coisas díspares e insuspeitadas, quando pressenti seus passos de volta no corredor, e foi então só o tempo de eu abrir os olhos pra inspecionar a postura correta dos meus pés despontando fora do lençol, dando conta como sempre de que os cabelos castanhos, que brotavam no peito e nos dedos mais longos, lhes davam graça e gravidade ao mesmo tempo, mas tratei logo de fechar de novo os olhos, sentindo que ela ia entrar no quarto, e já adivinhando seu vulto ardente ali por perto, e sabendo como começariam as coisas, quero dizer: que ela de mansinho, muito de mansinho, se achegaria primeiro dos meus pés, que ela um dia comparou com dois lírios brancos.   

O LEVANTAR   

Já eram cinco e meia quando eu disse pra ela “eu vou pular da cama” mas ela então se enroscou em mim feito uma trepadeira, suas garras se fechando onde podiam, e ela tinha as garras das mãos e as garras dos pés, e um visgo grosso e de cheiro forte por todo o corpo, e como a gente já estava quase se engalfinhando eu disse “me deixe, trepadeirinha”, sabendo que ela gostava que eu falasse desse jeito, pois ela em troca me disse fingindo alguma solenidade “eu não vou te deixar, meu mui grave cypressus erectus”, gabando‑se com os olhos de tirar efeito tão alto no repique (se bem que ela não fosse lá versada em coisas de botânica, menos ainda na geometria das coníferas, e o pouco que atrevia sobre plantas só tivesse aprendido comigo e mais ninguém), e como eu sabia que não há rama nem tronco, por mais vigor que tenha a árvore, que resista às avançadas duma reptante, eu só sei que me arranquei dela enquanto era tempo e fui esquivo e rápido pra janela, subindo imediatamente a persiana, e recebendo de corpo ainda quente o arzinho frio e úmido que começou a entrar no quarto, mas mesmo assim me debrucei no parapeito, e, pensativo, vi que o dia lá fora mal se espreguiçava sob o peso de uma cerração fechada, e, só esboçadas, também notei que as zínias do jardim embaixo brotavam com dificuldade dos borrões de fumaça, e estava assim na janela, de olhos agora voltados pro alto da colina em frente, no lugar onde o Seminário estava todo confuso no meio de tanta neblina, quando ela veio por trás e se enroscou de novo em mim, passando desenvolta a corda dos braços pelo meu pescoço, mas eu com jeito, usando de leve os cotovelos, amassando um pouco seus firmes seios, acabei dividindo com ela a prisão a que estava sujeito, e, lado a lado, entrelaçados, os dois passamos, aos poucos, a trançar os passos, e foi assim que fomos diretamente pro chuveiro.

Published August 24, 2018
Excerpted from Um copo de cólera, Companhia das Letras Ltda in 1978
© Companhia das Letras, 1978
© Raduan Nassar, 1978

From A Cup of Rage

Written in Portuguese by Raduan Nassar


Translated into English by Stefan Tobler

THE ARRIVAL

And when that afternoon I arrived home at kilometre 27 on the road from town, she was walking around, already waiting for me on the lawn, and came and opened the gate so that I could drive right in, and as soon as I came out of the garage we climbed the stairs together to the conservatory, and no sooner were we there than I opened the middle curtains and we sat down in the wicker chairs, our eyes fixed on the hilltop opposite, where the sun was setting, and the two of us sat in silence until she asked me ‘what’s the matter?’, but I, somewhere else entirely, remained distant and still, my thoughts lost in the red sunset, and it was because she repeated the question that I replied ‘have you eaten yet?’ and as she said ‘later’ I got up and wandered over to the kitchen (she followed me), took a tomato from the fridge, went over to the sink and washed it, then went to get the salt-shaker from the cupboard and sat down at the table (she followed all my movements from across the room, while I, to annoy her, pretended not to notice), and it was under her constant gaze that I began to eat the tomato, sprinkling more salt on what remained in my hand, making a show of biting into it with relish in order to reveal my teeth, strong as a horse’s, knowing that she couldn’t tear her eyes off my mouth, knowing that beneath her silence she was writhing with impatience, knowing above all that the more indifferent I seemed to be, the more attractive she found me, I only know that when I finished eating the tomato I left her there in the kitchen and went to get the radio that was on the shelf in the living room, and without going back to the kitchen we met again in the hall, and without a word and almost together we entered the half-light of the bedroom.

IN BED

For a few moments in the room we seemed to be two strangers observed by somebody, and that somebody was always her and me, the two had to watch what I was doing and not what she was doing, so I sat on the edge of the bed and calmly started taking off my shoes and socks, holding my bare feet in my hands and feeling how lovely and moist they were, as if pulled out of the earth that very minute, and then I, with fixed purpose, started to walk around, feigning little reasons for my movements, letting the hems of my trouser-legs brush the floor, at the same time as they partially covered my feet, lending them mystery, knowing that they, bare and very white, powerfully embodied my coming nakedness, and soon I heard her breathing in deeply, over by the chair, where she had perhaps already given in to her desperation, struggling to take off her clothes, getting her fingers caught in the strap slipping down her arm, and I, still faking, knew that all of that was real, oh how I knew her nightmarish obsession for feet, and for my feet in particular, their firm step and well-shaped form, a little bony around the toes perhaps and nervously marked with veins and tendons on the instep, though they hadn’t lost the shy manner of a tender root, and I went to and fro with my calculated steps, lengthening the wait more and more with minimal pretexts, but as soon as she left the room and went briefly to the bathroom, I quickly took off my trousers and shirt and throwing myself onto the bed, I waited for her, stiff and ready, enjoying in silence the cotton of the sheet that covered me, and right then I closed my eyes thinking of the stratagems I would use (of all the many I knew), and in this way I went over alone in my head the things that we did, how she quivered at the first twitches of my mouth and at the shine I forged in my eyes, where I brought into plain view what was most vile and sordid in me, knowing that carried away by my other side she would always shout ‘so this is the bastard I love’, and I went over in my head that other trifling move in our game, a preamble nonetheless to unexpected later twists and turns, just as necessary a start as pushing a simple pawn up the board, in which I closed my hand over hers and straightened out her fingers, instilling courage in them, guiding them under my control to the hair on my chest, until they, from the example of my fingers under the sheet, developed their own masterful clandestine activities, or at a more advanced stage, after having carefully pored over our hairs, swellings and many smells, when the two of us on our knees measured the longest path for a single kiss, the palms of our hands pressed together, our arms open in an almost Christian exercise, our teeth biting each other’s mouths as if biting into the soft flesh of the heart, our eyes closed and our imaginations surrendered to the curves of our circlings, I also saw myself involved in certain practices, such as when, in a trance and already haughtily raised above the saddle of her stomach, I would prematurely fulfil one of her (of my) strangest whims, shooting sudden violent jets of milky birdlime which stuck to the skin of her face and the skin of her breasts, or such as that other, less impulsive one, slower to ripen, its fruit developing in a silent and patient crescendo of firm contractions, in which, me inside her, without our moving, with exasperated cries we reached those death-rattles of the height of exaltation, and I thought about the dangerous backwards leap, when she on her stomach would generously offer me another pasture, and in which my arms and hands symmetrically and almost mechanically gripped her below the shoulders, pressing and adjusting, part by part, our anointed bodies, and all the time I was thinking of my hands, and the broad backs of them, they were much used in this passionate geometry, so well devised by me, and which invariably led her to say in her perdition ‘magnificent, magnificent, you’re something else’, and from there my thoughts drifted to the restorative moments, the cigarettes we smoked following each poisoned bubble of silence, or during our conversations over a cup of coffee from the thermos (we would escape from bed naked and desecrate the kitchen table), when she would try to describe to me the confused experience she had when she came, always mentioning my confidence and boldness as I conducted the ritual, scarcely hiding her surprise at how I would repeatedly enlist God’s name in my obscenities, telling me above all how much I had taught her, especially about an awareness of the act through our eyes that often followed, stone by stone, each stretch of a convulsing road, and that was when I would mention her intelligence, which I always praised as the best thing about her in bed, an agile and active intelligence (even if only when I pricked her on), exceptionally open to all incursions, and that would lead to me talking about myself too, fascinating her with the intentional (and not so intentional) contradictions in my character, teaching her among other lies that I, the bastard, was pure and chaste, and, there with my eyes closed all this time, I was still thinking about many other things while she was out of the room, since the imagination is very quick, or its time is different, and it uses and simultaneously confuses separate and unexpected things, when I discerned her footsteps returning in the hall and only had time to open my eyes and check that my feet were positioned correctly, poking out of the bottom of the sheet, noticing as so many times before that the brown hairs that sprouted on my instep and longer toes gave them both grace and gravitas, but I made sure I quickly closed my eyes again, feeling that she was about to enter the room, and already sensing her fervent form nearby, and knowing how things would start, which is: she would softly, ever so softly, come up to my feet, which she had once compared to two white lilies.

THE RISING

It was already half past five when I said to her ‘I’m going to jump out of bed’ but she wound herself around me like a creeping vine, her claws closing where they could, and she had claws on her hands and claws on her feet, and a thick, strongly smelling birdlime over her whole body, and since we were almost grappling each other I said ‘let me go, little bindweed’, knowing that she liked it when I spoke that way, so in response she said, feigning solemnity, ‘I won’t let you go, my grave Cypressus erectus’, her eyes beaming with pride at her impressive repartee (although there she wasn’t well versed in botanical matters, even less so in the geometry of conifers, and the little that she dared flaunt concerning plants she had learnt from me and nobody else), and in the knowledge that there are no branches or trunks, however strong the tree may be, that can resist the advances of a creeper, I tore myself away from her while there was time and slipped quickly over to the window, immediately raised the blind and felt on my still warm body the cold, damp air that started to get in the room, but even so I leant on the sill and, deep in thought, saw that outside the day was barely starting to stretch its limbs under the weight of a thick fog, and I also noticed that, no more than sketches, the zinnias in the garden below were struggling to push up through the smudges of smoke, and I was at the window like this, my eyes on the top of the hill opposite, on the spot where the Seminary stood dimly in the fog, when she came up behind me and again wound herself around me, slipping the rope of her arms brazenly around my neck, but with skill I, using my elbows gently, kneading her firm breasts a little, was soon sharing the prison I was in with her, and, side by side, entwined, the two of us gradually interlaced our feet and that was how we went straight to the shower.

Published August 24, 2018
Excerpted form A Cup Of Rage, Penguin Random House UK. 2016
© Penguin Random House UK
© Raduan Nassar, 1978, 1984, 1992.
© Stefan Tobler, 2015.

From Un bicchiere di rabbia

Written in Portuguese by Raduan Nassar


Translated into Italian by Amina di Munno

L’ARRIVO

E quando arrivai la sera a casa mia, al 27, lei mi aspettava già camminando sull’erba, venne ad aprirmi il cancello per farmi entrare con la macchina e, appena uscito dal garage, salimmo assieme le scale che portavano al terrazzo dove, appena giunti, aprii le tende centrali e ci sedemmo sulle sedie di vimini, restando con gli occhi volti in alto nella direzione opposta, lì dove il sole cominciava a tramontare, e stavamo entrambi in silenzio quando lei mi domandò «che cos’hai?», ma io, del tutto assorto, rimasi distaccato e taciturno, il pensiero perduto nel rosseggiare del ponente, e fu solo per l’insistenza della domanda che risposi «hai già cenato?» e, poiché mi disse «più tardi», mi alzai e andai senza premura in cucina (lei mi venne dietro), presi un pomodoro dal frigorifero, andai verso il lavandino e lo passai sotto il getto dell’acqua, poi andai a prendere la saliera dalla credenza e mi sedetti a tavola (lei dall’altro lato seguiva ogni mio movimento, benché io, indifferente, facessi finta di non accorgermi) e fu sempre sotto il suo sguardo che cominciai a mangiare il pomodoro, salando a poco a poco quello che mi restava nella mano, simulando un impegno nel morderlo per mostrare i miei denti forti come i denti di un cavallo, poiché sapevo che i suoi occhi non si staccavano dalla mia bocca e sapevo che sotto il suo silenzio lei si contorceva di impazienza e sapevo, soprattutto, che quanto più indifferente le sembrassi tanto più mi desiderava, so solo che quando finii di mangiare il pomodoro la lasciai in cucina e andai a prendere la radio che era sulla mensola della sala e, senza tornare in cucina, ci ritrovammo nel corridoio e, senza dire una parola, entrammo quasi assieme nella penombra della camera.

A LETTO

All’inizio nella stanza sembravamo due estranei che fossero osservati da qualcuno e questo qualcuno eravamo sempre io e lei e spettava a tutti e due badare a ciò che io facevo, non a ciò che faceva lei, perciò mi sedetti sulla sponda del letto e cominciai a sfilarmi lentamente le scarpe e le calze, prendendomi i piedi scalzi fra le mani, li sentivo deliziosamente umidi come se fossero stati strappati alla terra in quell’istante e cominciai, dopo, con uno scopo preciso, a camminare sul pavimento, facendo finta di avere qualche motivo per quell’andirivieni nella stanza, lasciando che l’orlo dei pantaloni sfiorasse leggermente il pavimento e allo stesso tempo mi coprisse in parte i piedi con un certo mistero, poiché sapevo che in essi, scalzi e molto bianchi, c’era il preludio possente della mia nudità preannunciata e sentivo subito il suo respiro profondo vicino a quella sedia dove lei forse già si abbandonava alla disperazione, mentre si spogliava, impacciata, le si impigliavano persino le dita sulla spallina che scivolava lungo il braccio e io, sempre fingendo, sapevo che tutto ciò era vero, conoscendo, come conoscevo, quel suo incubo ossessivo per i piedi e, soprattutto, per i miei, saldi nel portamento e ben scolpiti, con le dita un po’ nodose, segnati nervosamente sul dorso da vene e tendini, che non perdevano, tuttavia, l’apparenza timida di radice tenera, e io andavo e venivo con i miei passi calcolati, dilatando sempre l’attesa con piccoli pretesti, ma non appena lei lasciò la stanza e andò per qualche istante in bagno, mi sfilai velocemente i pantaloni e la camicia e mi buttai sul letto dove rimasi ad attenderla già eccitato e pronto, godendomi in silenzio il cotone del lenzuolo che mi copriva, e poi chiudevo gli occhi pensando alle diavolerie che avrei messo in atto (delle tante che sapevo) e così da solo cominciai a ripassare nella testa tutte le cose che facevamo, come lei vibrava alle prime smorfie della mia bocca e al luccichio che infondevo nei miei occhi, dove facevo affiorare quel che c’era in me di più turpe e sordido, sapendo che lei, trascinata dal mio doppio, avrebbe gridato sempre «è questa canaglia che amo», e ripassai nella testa quell’altra mossa triviale del nostro gioco, preambolo, tuttavia, di insospettate trame posteriori e così necessaria come fare avanzare da subito una semplice pedina sulla scacchiera e in cui io, chiudendo la mia mano nella sua, disponevo le sue dita, infondendo loro coraggio, sospingendole sotto il mio comando verso i peli del mio petto, affinché queste, sull’esempio delle mie stesse dita sotto il lenzuolo, svolgessero da sole una straordinaria attività clandestina o, allora, in una tappa successiva, dopo aver attentamente esplorato i nostri peli, ghiandole e tanti odori, quando tutti e due in ginocchio misuravamo il percorso più prolungato di un unico bacio, con le palme delle nostre mani che si univano, le braccia che si aprivano in un esercizio quasi cristiano, i nostri denti che mordevano all’altro la bocca come se mordessero la carne tenera del cuore e, a occhi chiusi, abbandonando l’immaginazione nelle curve di queste circonvoluzioni, mi ritrovai avvinto in altri maneggi, sia quando, ormai in estasi, superbamente sollevato dalla sella del suo ventre, rispondevo intempestivo a una delle sue (delle mie) stravaganze più insolite, spruzzando getti improvvisi e violenti di vischio lattiginoso che le aderiva alla pelle del viso e alla pelle dei seni, oppure quando, svolgendo un esercizio meno impulsivo e di lenta maturazione, il frutto si sviluppava in un crescendo muto e paziente di turgide contrazioni, mentre io ero forte dentro di lei, senza muoverci, e arrivavamo con grida esasperate agli affanni della più alta esaltazione, e pensai ancora al salto pericoloso del rovescio, quando lei prona mi offriva generosamente un altro pasto, mentre le mie braccia e le mie mani, simmetriche e quasi meccaniche, la tiravano su per le spalle, comprimendo e adattando, punto per punto, la massa unta dei nostri corpi, e pensavo sempre alle mie mani dal dorso largo, che erano molto usate in tutta quella geometria passionale, così bene elaborata da me e che la portava immancabilmente a dire con franca perdizione «magnifico, magnifico, tu sei speciale», e a quel punto cominciai a pensare ai momenti in cui ci si rinnova, alle sigarette che fumavamo dopo ogni bolla avvelenata di silenzio, quando non accadeva nel corso delle conversazioni di fronte a un caffè mantenuto al caldo nel thermos (saltavamo dal letto nudi e andavamo a profanare il tavolo della cucina), e in cui lei cercava di descrivermi la sua confusa esperienza del godimento, menzionando sempre la mia sicurezza e audacia nel condurre il rituale, celando appena lo stupore per il fatto che io affiancassi spesso il nome di Dio alle mie oscenità, parlandomi soprattutto di quanto le avessi insegnato, specialmente della consapevolezza dell’atto attraverso i nostri occhi che molte volte seguivano, pietra dopo pietra, tutti i tratti di una strada dissestata, ed era allora che parlavo della sua intelligenza, che ho sempre esaltato come la sua migliore qualità a letto, un’intelligenza agile e operosa (sia pure solo sotto la spinta dei miei stimoli), eccezionalmente aperta a tutte le incursioni, e io come per caso finivo col parlare anche di me, meravigliandola con le contraddizioni intenzionali (alcune nemmeno tanto) del mio carattere, insegnandole tra le altre frottole che io, canaglia, ero puro e casto, e lì, sempre a occhi chiusi, pensavo ancora a molte altre cose mentre lei non arrivava, giacché l’immaginazione è molto veloce o il suo ritmo diverso, poiché prepara e mescola contemporaneamente cose spaiate e insospettate, quando mi accorsi dei suoi passi di ritorno nel corridoio, e fu solo allora che aprii gli occhi per controllare la posizione corretta dei miei piedi che uscivano fuori dal lenzuolo e mi resi conto come sempre che i peli castani, che spuntavano sul dorso e sulle dita più lunghe, conferivano loro allo stesso tempo grazia e gravità, ma cercai di richiudere subito gli occhi, poiché sentivo che lei stava per entrare in camera e indovinavo già il suo corpo ardente nelle vicinanze e sapevo come sarebbero cominciate le cose, voglio dire che lei, piano, molto piano, si sarebbe dapprima accoccolata sui miei piedi, che un giorno aveva paragonato a due gigli bianchi.

IL RISVEGLIO

Erano già le cinque e mezza quando le dissi «salterò giù dal letto», ma lei allora si avvinghiò a me come un rampicante, le sue grinfie si chiudevano dove potevano e aveva gli artigli delle mani e gli artigli dei piedi e un vischio denso e dall’odore forte lungo tutto il corpo, e poiché stavamo già quasi per beccarci le dissi «lasciami, rampicantina», sapendo che le piaceva che le parlassi così, poiché di rimando mi disse, fingendo una certa solennità, «non ti lascerò, oh mio solenne cypressus erectus», vantandosi con gli occhi di ottenere un grande effetto con la battuta (benché non fosse poi così preparata in botanica, meno ancora nella geometria delle conifere, e il poco che osava sulle piante l’avesse imparato da me e da nessun altro), e poiché sapevo che non c’è ramo né tronco, per quanto l’albero possa essere vigoroso, che resista all’avanzata di un rampicante, posso dire che mi staccai da lei appena in tempo e me ne andai schivo e veloce verso la finestra, tirando su immediatamente la persiana e ricevendo col corpo ancora caldo l’aria fredda e umida che cominciò a entrare nella stanza, ma con tutto ciò mi affacciai al parapetto e, pensieroso, vidi che lì fuori la giornata stentava ad aprirsi sotto il peso di una fitta nebbia e, appena abbozzate, notai anche che le zinnie del giardino sottostante spuntavano con difficoltà dai nugoli di bruma, e stavo così alla finestra, con gli occhi ora volti verso la cima della collina di fronte, verso il luogo dove il Seminario era tutto sfumato in mezzo alla nebbia, quando lei arrivò da dietro e si avvinghiò di nuovo a me, lanciando disinvolta la corda delle braccia intorno al mio collo, ma io, con garbo, usando leggermente i gomiti, schiacciando un poco i suoi seni sodi, finii col dividere con lei la stretta a cui ero sottoposto e, uno accanto all’altra, allacciati, cominciammo entrambi, a poco a poco, a intrecciare i passi, e fu così che andammo dritti verso la doccia.

Published August 24, 2018
Excerpted from Un bicchiere di rabbia, SUR, 2018.
© Raduan Nassar, 1978
© SUR, 2018


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